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Nem Pelé nem Neymar: Isaquias é o ídolo dos moçambicanos canoístas

Aquele frio na barriga, os olhos marejados. A solenidade de hasteamento de bandeira na Vila Olímpica nesta terça-feira teve sabor diferente para dois canoístas de Moçambique.

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Isaquias é um fenômeno, representa muito mais que o Neymar, nem gosto muito de futebol. Mussa Chamaune

Independentemente do resultado nos Jogos Olímpicos do Rio, Mussa Chamaune e Joaquim Lobo já fazem parte da história do país do sudeste africano. Simplesmente porque são os primeiros representantes do esporte numa Olimpíada. E nesse resultado tem uma pitada brasileira com sabor de acarajé, prato preferido de Joaquim, e de arroz com feijão ou uma caprichada feijoada, os favoritos de Chamaune.

Os dois ficaram em terras brasileiras por oito meses, mais especificamente em Curitiba, num intercâmbio com a canoagem brasileira. Mas o namoro é longo: a dupla, que vai competir no C2 1.000m e nas provas individuais – C1 200m -, vem trilhando o caminho há um bom tempo sob orientação de treinadores de um país que tem no idioma português um dos traços em comum. E na hora de apontar um ídolo, uma referência, os dois nem querem saber de Pelé. Muito menos de Neymar. O cara, para eles, é Isaquias Queiroz, nome brasileiro da canoagem cotado na briga por medalha.

Mussa Chamaune e Joaquim Lobo, canoístas moçambicanos (Foto: Márcio Mará)
Mussa e Joaquim fazem história como primeiros canoístas a disputar Olimpíada por Moçambique (Foto: Márcio Mará)

– Isaquias é um fenômeno, representa muito mais que o Neymar, nem gosto muito de futebol. Acompanhamos tudo que o Isaquias faz – disse, sem hesitar, Mussa Chamaune, 23 anos, nascido em Maputo.

– Ah, o Isaquias… A técnica dele é perfeita. A maneira dele… é um atleta e tanto – afirmou,  hesitando para encontrar as palavras, Joaquim Lobo, 21 anos, também de Maputo.

 A canoagem brasileira cresceu muito, virou uma referência, é de alto nível”
Joaquim Lobo

Jovens, os dois encontraram em Isaquias o maior exemplo. Não chegaram a ficar amigos do brasileiro, mas a reverência mostra o respeito por quem será um dos adversários no C2 1.000m. Tanto Joaquim como Mussa não economizaram elogios também aos treinadores Juan Emanuel, o primeiro responsável pela evolução da dupla, em 2011, e Figueroa Conceição, o atual. O Brasil sempre presente…

– A canoagem brasileira cresceu muito, virou uma referência, é de alto nível. O intercâmbio começou em 2011, com o Juan, na preparação para os Jogos Africanos, depois disso, em 2013, para o Mundial, e em 2015 com o Figueroa. Os dois foram muito importantes. Ganhamos o ouro nos 1.000m na África. Nossa expectativa é grande. Queremos sentir como os atletas se comportam numa competição olímpica e ver o resultado desse aprendizado – lembrou Joaquim Lobo..

Isaquias Queiroz está se preparando para o Aquece Rio (Foto: Murilo Ribas / Confederação Brasileira de Canoagem)
Isaquias, ídolo dos moçambicanos (Foto: Murilo Ribas / Confederação Brasileira de Canoagem)

Mussa Chamaune confessou que não esperava resultados com a rapidez com que aconteceram, ainda mais diante de tantas dificuldades. Mas, com a fé em dia, tratou de fazer seu pedido quando avistou um dos maiores cartões-postais do Rio de Janeiro.

– Treinei bastante para chegar aqui, mas não imaginei que fosse assim, de forma surpreendente. Esperava mais tempo para conseguir. Mas chegamos aqui. Estou um pouco nervoso pelo fato de sermos os primeiros do país. Não chega a tirar o sono, mas estou ansioso para participar da competição. Vai ser na Lagoa, dia 15. Linda, por sinal! E dá para ver o Cristo Redentor de lá. Já pedimos a ele um grande resultado. O que eu mais gostaria era chegar a uma final, estarei feliz. Já é muito para um evento tão grande que nem esse. Será um motivo de alegria ímpar para nós e o nosso país. Aqui são os melhores dos melhores.

Joaquim Lobo sorria feito criança na Vila Olímpica e olhava tudo ao redor. Mas não veio para brincadeira: na hora da competição, sabe que a responsabilidade será enorme e tem consciência da dimensão do feito da dupla para o país.

– É uma alegria muito grande escrevermos o nome na canoagem moçambicana como os primeiros a participar dos Jogos Olímpicos. Dá um frio na barriga, sim. Como é a primeira vez temos que mostrar o que aprendemos esse tempo todo aqui no Brasil e dar o melhor de nós por resultados nos Jogos.

 É uma alegria muito grande escrevermos o nome na canoagem moçambicana como os primeiros a participar dos Jogos Olímpicos. Dá um frio na barriga, sim.
Joaquim Lobo

A saudade da família é o maior lamento de uma dupla feito unha e carne, até quando não está em competição. Os dois começaram a selar a parceria em 2010. Mas cada um tem suas preferências. Se Joaquim prefere o acarajé baiano, Mussa opta por um arroz com feijão bem nacional. De famílias humildes, passaram por dificuldades financeiras até atingirem o patamar de atletas olímpicos. Mussa lembra a longa caminhada. Literalmente.

– Quando comecei a fazer canoagem, tive muita dificuldade. Meu pai é pedreiro, minha mãe é dona de casa. Somos cinco irmãos. Para treinar tinha que caminhar longas distâncias até o clube Marítimo de Desportos, eram 10 quilômetros por dia, às vezes correr até lá já fazia parte do treinamento. Não tínhamos alimentação certa. Era bem difícil. Tivemos nossa primeira vitória um ano e meio depois de começar a treinar, no Campeonato Africano. Graças a nosso treinador, o Juan Emanuel, conseguimos.

Joaquim lembra que, no seu caso, a canoagem o possibilitou de seguir nos estudos e a terminar o ensino médio. Tensos, mas felizes, os dois esperam voltar para Moçambique com boas histórias para contar. As provas de canoagem começarão no dia 15, na Lagoa.

Extrovertido, Mussa já está mais acostumado com a cultura brasileira e cantarolou de “Não me deixe sozinho”, do Nego do Borel – “Amor, ficar sozinho dá caô” – até “A noite”, de Tiê – “Entre palavras não ditas, tantas palavras de amor. Essa paixão é antiga e o tempo nunca passou.” Pelo visto, a tendência é o intercâmbio aumentar…

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